Vitaminas: dos benefícios aos riscos

Por Lucile T. Abe-Matsumoto

Não há evidências científicas conclusivas sobre o efeito das vitaminas antioxidantes (A, C e E) para a prevenção de doenças; por outro lado, há agora evidências de que altas doses de algumas vitaminas aumentam o risco de desenvolvimento de algumas doenças, incluindo o câncer. 

Vitaminas são nutrientes essenciais para a manutenção de uma vida saudável por desempenharem funções vitais e específicas nas células e nos tecidos do organismo1,2. De acordo com sua solubilidade, são classificadas em lipossolúveis ou hidrossolúveis. Do primeiro grupo fazem parte as vitaminas A, D, E e K; e entre as hidrossolúveis estão a tiamina (B1), riboflavina (B2), piridoxina (B6), biotina, ácido fólico, niacina, cianocobalamina (B12), ácido pantotênico e ácido ascórbico (vitamina C)3.

As funções nutritivas e de prevenção de doenças decorrentes de sua deficiência já são conhecidas há mais de um século. Nos últimos anos, houve um aumento na ingestão de vitaminas pela população devido à crença de que o consumo de alguns micronutrientes pode reduzir a incidência de doenças crônicas, incluindo o câncer. Porém, o consumo excessivo desses micronutrientes em busca de seus benefícios pode também causar danos à saúde4.

Benefícios e riscos das vitaminas

Diversas funções das vitaminas são plenamente reconhecidas pela comunidade científica, seguem alguns exemplos: A vitamina A é essencial para a manutenção da saúde visual e sua carência causa a cegueira noturna; a vitamina C tem importante papel como antioxidante e sua deficiência leva ao desenvolvimento do escorbuto; a vitamina D é fundamental para a manutenção da saúde óssea e sua falta causa o raquitismo; a vitamina B1 é responsável por manter o bom funcionamento do sistema nervoso e sua falta causa a doença denominada de beribéri2. Até há pouco tempo, a importância das vitaminas era atribuída somente às funções de prevenção de doenças decorrentes de sua deficiência. Porém, nas últimas décadas, diversas pesquisas têm centrado em outros papéis que esses micronutrientes desempenham na manutenção da saúde, especificamente na redução do risco de desenvolvimento de patologias crônicas como doenças coronarianas, câncer e diabetes. Muitas dessas investigações têm como foco os alimentos que contêm vitaminas C e E e β-caroteno, precursor da vitamina A, reconhecidos por apresentarem atividade antioxidante, exercendo importante função de defesa do organismo contra os radicais livres.

A partir dessas evidências, iniciaram-se, na década de 1980, diversos estudos epidemiológicos atribuindo ao β-caroteno (pró-vitamina A) e ao α-tocoferol (vitamina E), fator de proteção contra o desenvolvimento de câncer devido às suas propriedades antioxidantes, porém os resultados eram controversos. Somente a partir de 1994, conclusões consistentes sobre o papel protetor desses antioxidantes na prevenção do câncer foram obtidas por meio de dois ensaios clínicos em larga escala. O estudo denominado “The alpha-tocopherol, beta-carotene (ATBC) lung cancer prevention study”, testou a hipótese de que o aumento no consumo de α-tocoferol e/ou β-caroteno em fumantes poderia prevenir o câncer de pulmão e outros tipos de câncer. Porém, os resultados demonstraram que a incidência de câncer de pulmão aumentou em 17% entre a população que recebeu suplementação de β-caroteno5.

Outro estudo, denominado “The beta-carotene and retinol efficacy trial (Caret)”, demonstrou que a suplementação de β-caroteno e retinol (vitamina A) aumentou em 28% a incidência de câncer no grupo suplementado6.

Algumas críticas a esses estudos estão relacionadas à dose utilizada para suplementação, que claramente ultrapassou o que seria ingerido por fontes alimentares. Além disso, já se demonstrou que altas doses de antioxidantes podem agir como pró-oxidantes, portanto, toda suplementação deve ser cautelosa para evitar riscos desnecessários à saúde.

Além das vitaminas com função de antioxidantes, a vitamina D também tem sido alvo de muitas pesquisas nos últimos anos. Embora sua função de manter o metabolismo do cálcio e de prevenir o raquitismo tenha sido descrito pela primeira vez há cerca de 100 anos, estudos atuais têm relacionado a deficiência de vitamina D com o desenvolvimento de várias doenças como diabetes tipo II, esclerose múltipla, doença inflamatória intestinal, lúpus eritematosos sistêmico e artrite reumatoide.

A deficiência de vitamina D tem aumentado nos últimos anos em decorrência dos hábitos da vida moderna, e principalmente devido às ameaças da ocorrência de câncer de pele, que resultou em tempo limitado de exposição ao sol pela população7. Assim, atualmente, a deficiência de vitamina D é considerada uma epidemia, e a suplementação dessa vitamina tem sido cada vez mais recomendada7.

A suplementação com micronutrientes pode ajudar a evitar o desenvolvimento de doenças, porém, sua ingestão excessiva, principalmente das vitaminas lipossolúveis, pode trazer danos à saúde. Têm sido relatados alguns casos de intoxicação por excesso de vitamina D, tanto em crianças quanto em adultos. Foram reportados dois casos de intoxicação de vitamina D em crianças por erro do fabricante na formulação e também por erro na recomendação de ingestão, resultando em hipercalcemia e sintomas como náusea, poliúria e fadiga8. Outro estudo apresentou sete casos de intoxicação por vitamina D em crianças, devido a erro de fabricante de um suplemento de óleo de peixe, que apresentou dose excessivamente alta de vitamina D, causando hipercalcemia, perda de apetite, vômito, perda de peso e constipação9.

Casos de intoxicação em adultos também foram reportados devido à ingestão de um suplemento de vitamina D que apresentou dose real cerca de mil vezes acima da quantidade declarada no rótulo. Uma paciente de 34 anos diagnosticada com osteoporose ingeriu diariamente seis cápsulas de vitamina D durante 4 meses e foi hospitalizada com hipercalcemia e insuficiência renal. Outro paciente de 57 anos ingeriu três cápsulas de vitamina D por 11 meses, e desenvolveu sintomas de insuficiência renal aguda. Esses pacientes recuperaram suas funções renais após meses de tratamento e suporte adequado10.

Estima-se que 41,8% de gestantes em todo o mundo sejam anêmicas, e pelo menos metade dos casos pode ser atribuída à deficiência de ferro, e outros resultantes de condições como deficiência de folato, vitamina B12 ou vitamina A, inflamação crônica, infecções parasitárias e distúrbios hereditários. Considerando a alta prevalência de anemia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou a suplementação de ferro e ácido fólico durante a gestação para reduzir o risco de baixo peso na criança e de anemia na gestante e, ainda, que a suplementação com ácido fólico se inicie pelo menos 30 dias antes da concepção para prevenção da ocorrência de defeitos no tubo neural11.

No Brasil, a RDC n° 344 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa, 2002) exige a fortificação de farinhas de trigo e de milho e seus subprodutos com ácido fólico, devendo cada 100g do produto fornecer uma quantidade mínima de 150 µg da vitamina12. Em alguns países da Ásia e da África, onde há alta prevalência de anemia, a suplementação com ferro e ácido fólico em gestantes se mostrou eficaz na redução da anemia e da mortalidade materna e infantil.  No Brasil, estudos indicam redução significativa na prevalência de defeitos do tubo neural após a fortificação obrigatória das farinhas, mostrando a importância da suplementação adequada com ácido fólico13. Porém, da mesma forma que para outros micronutrientes, as concentrações de ácido fólico ingeridas não devem ultrapassar o limite considerado seguro, pois os efeitos dos níveis elevados de folato sérico ainda são questionáveis14. Estudos recentes da Escola de Saúde Pública da Universidade Jonhs Hopkins sugerem que a ingestão em excesso durante a gestação aumenta o risco de desenvolvimento de autismo na criança15.

Conclusão

Não há evidências científicas conclusivas sobre o efeito das vitaminas antioxidantes (A, C e E) para a prevenção de doenças; por outro lado, há agora evidências de que altas doses de algumas vitaminas aumentam o risco de desenvolvimento de algumas doenças, incluindo o câncer.  Apesar dessas evidências, existe o apelo comercial das indústrias de suplementos de vitaminas que continuam divulgando os benefícios na prevenção de câncer e outras alegações de saúde que não são plenamente reconhecidas pela comunidade científica. A falta de uma regulamentação mais rigorosa para a comercialização de suplementos de vitaminas, assim como de outros suplementos alimentares, resulta em consumo exagerado pelos consumidores. Tanto a comunidade científica quanto os órgãos governamentais necessitam orientar a população para evitar a ingestão abusiva de vitaminas sem a real necessidade.

Não há nenhum alimento que contenha todas as vitaminas na quantidade adequada, portanto, é essencial ter uma alimentação diversificada. Em geral, a suplementação com vitaminas não é necessária quando se tem por hábito uma dieta equilibrada e hábitos de vida saudáveis. O antigo ditado de Hipócrates continua valendo: “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”. E quanto aos riscos da suplementação com vitaminas, deve-se ter muita atenção à dose ingerida, pois a seguinte frase também é muito verdadeira: “Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio” (Paracelso).

Lucile T. Abe-Matsumoto é farmacêutica-bioquímica, mestre em ciências dos alimentos e doutora em nutrição em saúde pública. É pesquisadora científica do Instituto Adolfo Lutz.

Referências

  1. Dutra de Oliveira, J .E.; Marchini, J. S. Ciências nutricionais. São Paulo: Sarvier, 2003.
  2. FAO/WHO Expert Consultation on human vitamin and mineral requirements. vitamin and mineral requirements in human nutrition: report of a joint FAO/WHO expert consultation. 2nd Ed. Bangkok: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2004.
  3. Mahan, L. K.; Escott-Stump, S. Krause-alimentos, nutrição e dietoterapia. 12. ed. São Paulo: Elsevier, 2010.
  4. Guallar, E.; Stranges, S.; Mulrow, C.; Appel, L. J.; Miller, E. R “Enough is enough: stop wasting money on vitamin and mineral supplements”. Ann Intern Med. 2013:159(12):850-1.
  5. Heinonen, O. P.; Huttunen, J. K.; Albanes, D. “The effect of vitamin E and beta-carotene on the incidence of lung cancer and other cancers in male smokers”. N Engl J Med 1994; 330:1029-35.
  6. Omenn, G. S.; Goodman, G.; Thornquist, M.; Grizzle, J.; Rosenstock, L.; Barnhart, S. et al. “The betacarotene and retinol efficacy trial (Caret) for chemoprevention of lung cancer in high risk populations: smokers and asbestos-exposed workers”. Cancer Res 1994; 54:2038s-43s
  7. Kuriacose, R.; Olive, K. E. “Vitamin D insufficiency/deficiency management”. South Med J. 2014:107(2):66-70.
  8. Araki, T.; Holick M. F.; Afonso, B. D.; Charlap, E.; Romero, C. M.; Rizk, D.; Newman, L.G. “Vitamin D intoxication with severe hypercalcemia due to manufacturing and labeling errors of two dietary supplements made in the United States”. J Clin Endocrinol Metab. 2011; 96(12):3603-8.
  9. Kara, C.; Gunindi, F.; Ustyol, A.; Aydin, M. “Vitamin D intoxication due to an erroneously manufactured dietary supplement in seven children”. Pediatrics. 2014;133(1):240-4.
  10. Koul, P. A.; Ahmad, S. H.; Ahmad F.; Jan, R. A.; Shah, S. U.; Khan, U. H. “Vitamin D toxicity in adults: a case series from an area with endemic hypovitaminosis D”. 2011. Oman Med J;26(3):201-4.
  11. Organização Mundial da Saúde. Diretriz: Suplementação diária de ferro e ácido fólico em gestantes, 2013.
  12. Ministério da Saúde. Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n º 344, de 13 de dezembro de 2002. Aprova o regulamento técnico para a fortificação das farinhas de trigo e das farinhas de milho com ferro e ácido fólico. Brasília: D.O.U.  Diário Oficial da União; Poder executivo, de 18 de dezembro de 2002.
  13. Fujimori, E.; Baldino, C. F.; Sato, A. P. S.; Borges, A. L. V.; Gomes, M. N. “Prevalência e distribuição espacial de defeitos do tubo neural no estado de São Paulo, Brasil, antes e após a fortificação de farinhas com ácido fólico”. 2013, Cad Saúde Pública; 29(1):145-54.
  14. Smith, A. D.; Kim Y. I.; Refsum, H. “Is folic acid good for everyone?” Am J Clin Nutr. 2008;87:517-33.
  15. “Too much folate in pregnant women increases risk for autism, study suggests”. Disponível em: http://www.jhsph.edu/news/news-releases/2016/too-much-folate-in-pregnant-women-increases-risk-for-autism-study-suggests.html