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Cafundó - A África no Brasil

Carlos Vogt e Peter Fry. Editora da Unicamp, Campinas, 1996

por Rodrigo Cunha

Seria possível encontrar próxima ao maior centro urbano e industrial do país, mais de um século depois do fim do tráfico de negros da África para o Brasil, uma comunidade que consegue preservar viva uma "língua" de origem africana? Em março de 1978, a imprensa anuncia essa "descoberta" e o jornalista Sérgio Coelho, de O Estado de S. Paulo, busca o apoio de pesquisadores da Unicamp para evitar que ela fosse explorada apenas como notícia. Entram em cena o lingüista Carlos Vogt e o antropólogo Peter Fry, que em 1996 publicariam Cafundó - A África no Brasil, um relato de seus dez anos de pesquisa junto à comunidade negra de um bairro rural, chamado Cafundó, da cidade de Salto de Pirapora, a 150 km de São Paulo, que contou, em momentos distintos, com a colaboração do lingüista Maurizio Gnerre e do historiador Robert Slenes.

Apesar de a maioria dos capítulos desse livro ter tido como base artigos já publicados em periódicos científicos como o Boletim do Museu Nacional, a Revista Dédalo, a Revista de Antropologia e a Revista Estudos Lingüísticos, a obra como um todo tem um formato e um sabor diferente dos tradicionais trabalhos acadêmicos. Como foi dito acima, é um relato de pesquisa. Um relato que não omite as angústias e os insucessos experimentados pelos autores no decorrer do trabalho de investigação - o que normalmente não aparece em escritos acadêmicos. E mais que isso: a pesquisa relatada, que inclui buscas sherlokianas por pistas que pudessem provar e garantir a posse da terra às famílias do Cafundó, é fortemente baseada na história oral dos membros da comunidade e de moradores da redondeza. Ou seja, é um relato recheado de relatos, uma história com muitos personagens.

Um dos principais protagonistas dessa história é Otávio Caetano, mestre da cupópia, a "língua secreta" do Cafundó. Falecido antes da publicação do livro, a ele Vogt e Fry dedicam Cafundó - A África no Brasil. Como num romance, assim os autores descrevem esse filho de uma das ex-escravas que recebeu as terras do Cafundó como doação testamentária de seu antigo senhor:

Otávio, aos 64 anos, poderia ter cinqüenta ou setenta. Nem tudo o que conta foi vivido na cronologia de sua idade. A imaginação poética, que é um dos traços mais marcantes da sua personalidade, faz com que ele tenha vivido histórias que não cabem num tempo linear. E ele as conta como ninguém. É trabalhador, festeiro, cantador, poeta, tocador de sanfona, conhecido e estimado por toda gente. Viúvo sem nunca ter casado; sem filhos, sozinho, sempre cheio de um afeto que ele recebe na mesma proporção em que dá (p. 193).


Moradores se divertem ao som do violão
Créditos: Alex Ribeiro

A exemplo de Otávio, inúmeros outros personagens povoam esse livro sobre o Cafundó, como um tal de Manuelão, líder da extinta comunidade vizinha conhecida como Caxambu, de onde supostamente teria vindo a cupópia. Manuelão, descrito como um herói que buscava o perigo para medir sua força e esperteza, é comparado pelos autores ao esperto João Grilo, personagem que coloca sua própria pele - e literalmente o "couro" da pele de seu amigo Chicó - em risco, confiando em sua astúcia, em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

E como essa, várias outras referências literárias aparecem em Cafundó - A África no Brasil. Numa delas, os autores mencionam o "Prefácio interessantíssimo" de Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, ao tratar do aspecto "poético" da estrutura sintática da cupópia, a "língua africana" falada no Cafundó, na análise de um diálogo entre Otávio, sua sobrinha Cida e um dos pesquisadores.

Outra referência literária que merece destaque e aparece mais de uma vez no relato de Vogt e Fry é uma nítida confissão - pouco usual no meio acadêmico - da vaidade intelectual dos pesquisadores. Eles comparam a si próprios com o personagem Brás Cubas, de Machado de Assis, que teria inventado seu famoso emplasto com uma dupla finalidade: por um lado, o espírito humanitário, e por outro, o desejo de obter a glória, com seu nome exposto na caixa do miraculoso remédio, nos folhetos que o divulgassem e nos jornais que o destacassem como notícia. Assim confessam se sentir Vogt e Fry em relação à ambígua visibilidade que sua pesquisa conferia ao Cafundó: ao mesmo tempo em que ela contribuía para a luta à qual eles próprios se empenharam desde o princípio, com o objetivo de garantir à comunidade a posse legal de suas terras, essa visibilidade também contribuía em parte para glória de ter os nomes de Vogt e Fry associados à explicação científica "definitiva" - ou pelo menos a mais completa - acerca da comunidade e de sua "língua africana".

Os autores mencionam, em particular, suas controvérsias teóricas em relação ao lingüista e etnólogo Gehard Kubik, do Centro de Estudos Africanos da USP, cuja abordagem filológica sobre a cupópia - atestando que a maioria de suas palavras são de fato de origem banto - tenderia, segundo Vogt e Fry, "a diminuir a importância das condições históricas e sociais que fizeram e fazem com que tais traços culturais acabem sobrevivendo à travessia atlântica e se reproduzindo ao longo das gerações aqui no Brasil". Os autores acrescentam que essa perspectiva teórica, que eles classificam como "historicizante", tenderia ainda "a minimizar o processo histórico ao longo do qual esses traços mudam de sentido e significação [grifo dos autores]" (p. 24).

Mais do que opor a perspectiva de Vogt e Fry sobre o Cafundó às escolhas teóricas de Kubik - e apontar quem seria mais merecedor da glória de Brás Cubas -, vale destacar a abordagem humana que os pesquisadores deixam transparecer em Cafundó - A África no Brasil. A história da comunidade reconstruída através de depoimentos de moradores locais e das redondezas é não apenas o ponto de partida da pesquisa, mas a base de apoio para os pesquisadores encontrarem peças-chave na montagem do quebra-cabeça durante o processo de investigação. É através dos relatos que eles descobrem, por exemplo, um traço cultural importante na comunidade ligado às suas crenças sobre feitiçaria, doenças e morte, entendendo o sentido das expressões muiombar, cuipar e cuendar pra cojenga carunga, empregadas na "língua" cupópia, como morrer, morrer de morte matada e morrer de morte morrida, respectivamente.


Fogão - muitas das casas ainda utilizam lenha para cozinhar

E é nesses relatos que estão algumas pérolas do livro - que não tiram o mérito do trabalho de Vogt e Fry na árdua e abrangente pesquisa e na construção de seu agradável texto. Um exemplo é o depoimento de Inácio Francisco de Souza, de 58 anos, morador de Patrocínio (MG), onde os pesquisadores foram apresentados à calunga, uma outra "língua africana" viva e ainda falada, como a cupópia do Cafundó. Segundo os autores, Inácio coloca a calunga no mesmo nível que "outras coisas que ele considera como próprias da 'raça', entre elas o futebol e o samba" (p. 254). Esse quitandeiro de Patrocínio, com simplicidade e precisão, faz em seu relato uma distinção entre negros e brancos - que poderia ser considerada, de certo modo, antropológica - a partir de um traço específico que caracteriza as mais diversas culturas: a dança. Apenas como aperitivo e para dar ao leitor a vontade de ir ao livro, transcrevo aqui esta pérola:

Discoteca não é dança para preto não. Discoteca, o senhor desculpa a gente falar, é dança para branco porque vocês não sabem dançar. Branco fica em pé parado e vai jogando só o cabelo. O preto tem ginga, o negócio de preto é gafieira, é sambar. O samba não é fácil de dançar. Para dançar samba tem que saber dançar, tem que ter ginga no corpo. Agora, discoteca não é para negro, que negro não tem cabelo pra jogar. Se ele fica em pé parado e joga, joga o que? Só se for o pescoço. Agora, o branco não. O branco fica ali, joga o cabelo, joga para lá, joga para cá, então a discoteca foi inventada justamente para branco (idem).

Além de ser um livro gostoso de se ler, pelos depoimentos, pelas histórias e pelos personagens que contém, Cafundó - A África no Brasil é uma obra de referência para qualquer historiador, sociólogo, lingüista ou antropólogo que se dedique a estudos afro-brasileiros. O livro contém dados sobre escravos do início do século XIX, obtidos em cartórios da região de Sorocaba, onde fica o bairro Cafundó da cidade de Salto de Pirapora; traz diversas fotos dos membros da comunidade; e também apresenta um rico apêndice de mais de 50 páginas com o glossário das "línguas" faladas no Cafundó, em Patrocínio e por dois personagens isolados, um em Alfenas (MG) e outro em Mogi das Cruzes (SP), que ainda preservam a memória de suas "línguas africanas". O trecho que faz referência a essas "águas residuais insuspeitadas" que fluem em meio "a situações cristalizadas de perdas lingüísticas", tem a marca perceptível de um dos autores, o poeta Carlos Vogt, que finaliza o capítulo com esse "quase hai-kai em prosa": "Água e pedra, rios de cristal" (p. 255).

Vale a pena conhecer a "poética" cupópia através do literário - e nem por isso menos academicamente valioso - relato de Vogt e Fry em Cafundó - A África no Brasil.

Atualizado em 10/11/03

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2003
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