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Editorial
A cidade e os livros
Por Carlos Vogt
10/06/2007

 

Quando cheguei em São Paulo, em 1960, vindo de Ribeirão Preto,

De Orlândia, onde estudei e aprendi, com o professor Cyro Armando Catta Preta a gostar

|de literatura, a amar a linguagem e outros simbolismos que tais,

De Sales Oliveira, onde nasci e de onde carrego as marcas de intransponíveis ausências,


Quando cheguei em São Paulo, em 1949, pela primeira vez, aos seis anos de idade, com

|minha mãe, na Estação de luz,

Contei os bondes que passavam ininterruptos pela praça em frente e fiquei, menino,

Admirado com a quantidade dos que circulavam abertos, com passageiros, o cobrador no

|estribo,

Dos que fechados, Camarões chamados, continham formas mais compostas, indistintas e

|distantes formas guardadas na proximidade de fatos e acontecimentos passados,

Como o do jogo, no Pacaembu, entre Palmeiras e São Paulo a que me levou,

Para me converter, tio Altino Osório, são-paulino devoto,

E quase que consegue porque vi pela primeira, única e definitiva vez,

Jogar, de um lado, Oberdan, do outro, Leônidas, o diamante negro, o inventor da

|bicicleta,

Que pôs para andar, neste jogo, o time do Palestra.


Quando cheguei em São Paulo, em 1960, fui para estudar no Roosevelt, da rua São

|Joaquim,

Na Liberdade e no Cursinho Castelões, na rua Direita, perto do Largo São Bento,

Preparar-me ao vestibular de letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da

|Universidade de São Paulo, à rua Maria Antônia,

E à Faculdade de Direito do Largo São Francisco,

O presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira ultimava sua Brasília, terminava seu

|mandato,

O país, capital no planalto, ingressava, quase sem perceber,

Para nós que vivíamos, eufóricos, a eloquência da democracia, seus versos, violões de

|rua,

Na crise política que o apocalipse travestido em plácida agitação

Preparava, cozia, fermentava no pão duro, amanhecido e seco do golpe militar de 1964.


Quando cheguei a São Paulo, em 1960, tudo era novo, no país dos novos,

A Novacap que se inaugurava,

O cinema que na Vera Cruz se acabava e que no Rio de Janeiro nascia de novo no cinema

|novo,

Os poetas, então novíssimos na coleção e na antologia do editor Massao Ohno,

Tudo novo, menos o Estado que já fora novo, embora velho conhecido por repetição,

Inclusive a que viria depois do golpe militar, com sofisticação de atualidade,

Que não era novo, pois, mas que espreitava de suas velhices carrancudas o destino

Dessa liberdade frágil, prazerosa da Maria Antônia, Juão Sebastião Bar, FAU-Maranhão,

Livraria Francesa, Pioneira, Bar Sem Nome, Bar do Zé, Arena, Oficina, Riviera,


Grêmio da Faculdade de Filosofia, Cursinho do Grêmio, Martinico Prado, Albuquerque Lins,

Paribar, Ferro’s, Redondo, Chic Chá, Catequese e Comício Poético, Sermão do Viaduto,

Surrealismo, Geração Beat, Rilke, Metafísica, Lautréamont, Clarice, Roman Jakobson,

Todorov, Teatro da Aliança Francesa, Rua General Jardim, Barão de Itapetininga,

Cinemateca, Sete de Abril, Avenida São Luiz, Bráulio Gomes, Rua da Consolação,

|Biblioteca Municipal, Mário de Andrade.

Paulicéia Desvairada, meditação sobre o Tietê, ode ao burguês, remate de Males,

Mário encontrando Piva, encontrando Ginsberg no Parque Ibirapuera de um supermercado

|na Califórnia,

Paranóia, caos, Mário em São Francisco, com Carlos Felipe Moisés, Claudio Willer,

Visitando o sobe e desce das ruas e das névoas, do oriente, ocidentais,

Oh! Este orgulho máximo de ser paulistamente!!!

São Paulo! Comoção da minha vida...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Garoa do meu São Paulo,

Garoa sai dos meus olhos.