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Democracia: crise e possibilidades

Por Luis Felipe Miguel

Compatibilizar a vontade de democracia com a necessidade de representação é o desafio em aberto, porque os representantes são estimulados a prestar contas prioritariamente a detentores de recursos importantes (financiadores de campanha, meios de comunicação), em vez de prestá-las aos seus eleitores. A redução da democracia à competição eleitoral representa o abastardamento do ideal de igualdade política e de soberania popular que era associado a ela. A experiência histórica demonstrou os limites da solução liberal padrão, que é afirmar uma igualdade na lei e julgar que, com ela, as assimetrias presentes na sociedade serão suspensas na política. Continue lendo Democracia: crise e possibilidades

É armadilha entoar hinos à democracia sem definir a qual democracia se refere

Por Roberto Romano

[na foto, o intelectual italiano Luciano Canfora, autor de A democracia – História de uma ideologia]

A democracia é uma palavra embreagem, no sentido a ser extraído de E. Benveniste: surge quando o discurso não tem condições de seguir uma linha lógica e factual consequente. Aí, a “embreagem” faz a narrativa seguir a marcha, deixando de lado terrenos perigosos, muito perigosos. Saliento neste artigo o elo entre as formas democráticas e as lideranças, algo que preocupa os analistas dos autoritarismos eleitos nos EUA, na Europa e no Brasil. Tal assunto mereceria um grande simpósio internacional e brasileiro, mas ele fica para quando a universidade assumir um papel de vanguarda na luta pela clarificação das falas políticas, uma das insuspeitadas fontes da tirania que surge, ameaçadora, no horizonte planetário. Continue lendo É armadilha entoar hinos à democracia sem definir a qual democracia se refere

Breves considerações sobre o mercado futuro de gás lacrimogêneo

Por Artur Araújo

Sociedades hiperdualizadas desequilibram catastroficamente as condições de exercício da democracia política, que tem um “limite máximo de elasticidade” frente ao nível de desigualdade entre os eleitores. Só podem se manter coerentes com crescente apelo ao gás lacrimogêneo, às cercas eletrificadas, aos capacetes, aos escudos, aos canhões de água e aos cassetetes. Como frisava Karl Polanyi, foi o século liberal britânico, com pleno domínio da alta finança sobre tudo e todos, que resultou em duas guerras globais, separadas no tempo por profunda crise no centro do sistema. Continue lendo Breves considerações sobre o mercado futuro de gás lacrimogêneo

A fragilidade da comunicação pública no Brasil e sua relação com uma democracia nunca consolidada

Por Eliane Gonçalves e Mariana Martins de Carvalho

Algumas sociedades construíram estruturas comunicacionais com o objetivo de reduzir as desigualdades que dão a alguns lugar privilegiado para exposição de ideias e opiniões. Sem sistemas para contrabalançar, lugares privilegiados de fala se retroalimentam e consolidam ainda mais privilégios. Ao longo do século XX sistemas comunicacionais de caráter público foram estruturados em vários países. Caracterizam-se por financiamento público, não terem o lucro como finalidade e contarem com salvaguardas para reduzir interferências do poder econômico do mercado e de ingerências dos governos: na Inglaterra, a BBC; no Japão, a NHK; nos Estados Unidos, as emissoras do sistema PBS; na Alemanha, os sistemas ZDF, ARD e a Deustche Welle (DW). Já o Brasil – apesar do princípio constitucional de complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de radiodifusão – mantém um dos ecossistemas comunicacionais mais desequilibrados do mundo. Continue lendo A fragilidade da comunicação pública no Brasil e sua relação com uma democracia nunca consolidada

Democracia iliberal: de Hungria e Rússia a Europa e América

Por Douglas Donin

[foto: Victor Orbán, primeiro ministro da Hungria]

A democracia, mais do que um conceito acabado, é uma ideia em permanente mutação e perpétuo movimento, ora avançando, ora recuando, sujeita às apreciações de cada geração e momento histórico sobre a dinâmica da constituição do poder e o sentido, função e papel do Estado frente aos cidadãos. Contemporaneamente, a democracia atinge sua expressão máxima, seu mais amplo alcance, no conceito conhecido como Estado democrático de direito, expressamente adotado pela Constituição Federal de 1988, logo em seu artigo 1º. Continue lendo Democracia iliberal: de Hungria e Rússia a Europa e América

Bolsonaro e a TV

Por Matheus Pichonelli

O resultado final da eleição pode sugerir que a campanha de 2018 sepultou alguns dos pilares que historicamente balizam as decisões políticas no país. A começar pelo poder da televisão e da chamada mídia tradicional. Mas não é bem assim. Continue lendo Bolsonaro e a TV

Mentiras lucrativas: modelos de negócio da web exploram radicalismos e ameaçam democracias

Por Rafael Evangelista

A má informação é mais popular, mais sensacional, gera mais cliques, mais reações emocionais, entretenimento e engajamento do que a informação verdadeira. E a reação das plataformas, até mesmo por esses motivos, tem sido estruturalmente agnóstica, ou seja, de incorporação do desvio como se fosse parte da normalidade. A má informação se tornou um negócio, tanto do ponto de vista político quanto do ponto de vista financeiro. A frase “não é bug, é feature” se aplica muito bem aqui, porque a má informação é incorporada e usufrui do sistema de recompensas hoje instituído. Continue lendo Mentiras lucrativas: modelos de negócio da web exploram radicalismos e ameaçam democracias

A crise global do conservadorismo

The Economist, 4 de julho de 2019

A direita de hoje não é uma evolução do conservadorismo, mas um repúdio a ele. O filósofo Michael Oakeshott o definiu perfeitamente: “Ser conservador… é preferir o que é familiar ao desconhecido, preferir o já tentado ao nunca tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante.” No melhor caso, o conservadorismo pode ser uma influência estabilizadora. É razoável e sábio; valoriza a competência; não está com pressa. Esses dias acabaram. A direita de hoje está em chamas e é perigosa. Continue lendo A crise global do conservadorismo

Como certa democracia pode ser o maior inimigo do planeta

Por David Runciman

A crise climática é uma questão que requer reflexão a longo prazo, cruzando gerações. No entanto, a política eleitoral é orientada a reagir em direção a queixas imediatas. A solução está na ‘democracia deliberativa’ (assembleias livres da representação partidária) e na democracia direta mais radical (protestos de rua de longos períodos). Publicado originalmente na revista Foreign Policy (20 de julho de 2019), sob o (péssimo) título “Democracy is the planet’s biggest enemy”. Continue lendo Como certa democracia pode ser o maior inimigo do planeta

Ensino superior, universidade e desenvolvimento: ensinamentos da experiência internacional

Por Reginaldo C. Moraes

Os exemplos dos Estados Unidos e da Alemanha mostraram que boas escolas – e as universidades entre elas – são parte decisiva da infraestrutura de desenvolvimento de um país. Tanto ou mais do que estradas, redes de energia ou comunicação via satélite. Mas, assim como esses outros investimentos infraestruturais, o retorno é lento e pouco focalizado em beneficiários diretos. Por isso, dizia o especialista Richard Nelson, fica longe do necessário se deixado a cargo exclusivamente da decisão privada. É preciso preservar, na investigação acadêmica, um espaço diversificado de áreas de interesse. A universidade precisa pairar acima da aplicação prática mais evidente – outra dificuldade para o investimento privado, cada vez mais marcado pelo “curto-prazismo”. Continue lendo Ensino superior, universidade e desenvolvimento: ensinamentos da experiência internacional